Category: Opinião

  • Os desafios da Verdade e da Confiança

    Os desafios da Verdade e da Confiança

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    Nunca foi tão fácil mentir. E nunca foi tão difícil distinguir a Verdade. Vivemos num tempo em que a informação circula à velocidade de um clique e, com ela, circulam também falsidades, manipulações e narrativas que se apresentam como factos. É neste cenário que o jornalismo assume um papel que considero absolutamente essencial: o de procurar a Verdade possível e de ser um farol de confiança num mar de ruído.

    A desinformação é hoje uma das maiores ameaças às democracias. Ela distorce perceções, alimenta divisões e fragiliza instituições. Mas, acima de tudo, mina a capacidade crítica dos cidadãos. Se não sabemos em que informação confiar, como podemos decidir? Como podemos exercer os nossos direitos em consciência? É aqui que o jornalismo, assente em princípios éticos e deontológicos, se torna mais do que um meio de comunicação e se transforma num serviço público.

    A Verdade, no jornalismo, não é absoluta. Nem pode ser. É construída com rigor, investigação, confronto de fontes e contraditório. É a melhor versão dos factos que conseguimos alcançar. E essa construção exige tempo, responsabilidade e, sobretudo, independência. Num ecossistema mediático onde a velocidade muitas vezes se sobrepõe à verificação, defender a Verdade parece que se está a tornar num ato de coragem.

    Mas não basta procurar a Verdade. É fundamental conquistar e merecer a Confiança. Numa sociedade saturada de informação, a credibilidade dos meios tornou-se um dos seus maiores capitais. Alguns órgãos são considerados mais fiáveis do que outros e essa perceção depende da forma como trabalham. Da transparência com que revelam as suas fontes. Da clareza com que distinguem factos de opinião. Da coerência com que tratam os temas. E do respeito que demonstram pelo leitor.

    A literacia mediática é também, por isso, parte desta equação. Quanto mais capazes formos de questionar, interpretar e contextualizar a informação, menos vulneráveis estaremos à desinformação. Cabe aos meios fazer esse esforço pedagógico e cabe-nos a nós, cidadãos, não desistir de procurar a informação de qualidade.

    A Verdade e a Confiança são dois lados da mesma moeda democrática. Sem Verdade, a Confiança desaparece. Sem Confiança, a informação perde valor. E sem informação credível, a própria democracia enfraquece.

    É por isso que, mais do que nunca, precisamos de jornalismo. Jornalismo que esclarece, que investiga, que confronta. Jornalismo que não desiste de procurar a Verdade e que se empenha, todos os dias, em merecer a nossa Confiança.

  • Celebrar o Natal sem prejudicar o ambiente

    Celebrar o Natal sem prejudicar o ambiente

    Teresa Lemos
    Coordenadora do GEOTA

    O Natal é tradicionalmente associado à paz, ao amor e à partilha. No entanto, tornou-se também uma das épocas do ano em que o consumismo atinge níveis particularmente elevados. Toneladas de papel e material de embrulho são descartadas, compram-se milhões de produtos sem verdadeira utilidade e há um enorme excesso e desperdício alimentar com muitos alimentos a acabar no lixo. O consumo impulsivo, típico desta época, contribui para a exploração excessiva de recursos naturais e para o aumento da produção de resíduos.

    Perante este cenário, surge a pergunta: é possível celebrar o Natal sem prejudicar tanto o planeta? A resposta é afirmativa e passa por pequenas mudanças de comportamento e escolhas mais conscientes.

    Antes de adquirir um presente, é fundamental questionar se ele é realmente necessário e qual a sua pegada ecológica. As escolhas de consumo refletem-se diretamente na saúde dos ecossistemas, e devemos repensar hábitos e padrões de consumo.

    Promover práticas mais sustentáveis implica reduzir, reutilizar e reciclar, evitando desperdícios sempre que possível. Pequenas decisões — como escolher produtos locais, duráveis e com menor impacto ambiental — fazem diferença e ajudam a proteger o ambiente. Reduzir o desperdício alimentar e recorrer a alternativas ecológicas para embrulhar presentes são medidas que todos nós podemos tomar e que contribuem para um Natal mais sustentável. A imaginação pode substituir o desperdício, e mesmo ações individuais têm impacto coletivo significativo.

    A mudança depende do contributo de todos. Celebrar o Natal não significa excesso e desperdício; pode ser, antes, uma oportunidade para reforçar valores como moderação, responsabilidade ambiental e respeito pelo planeta.

  • Boas festas e boas notícias

    Boas festas e boas notícias

    Fátima Ferreira
    Diretora

    O ano está quase a despedir‑se, e traz consigo um presente especial para todos os que fazem e acompanham a Gazeta das Caldas. Na semana passada, o nosso jornal foi distinguido pela Associação Portuguesa de Imprensa com o Prémio Património Editorial, distinção que valoriza não apenas a longevidade deste semanário centenário, mas também o seu compromisso permanente com o jornalismo de proximidade, a liberdade de imprensa e o direito das populações à informação.

    Poucos dias antes, inaugurámos, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, a exposição “Os 100 anos da Gazeta das Caldas”, que convida o público a revisitar um século de histórias através das primeiras páginas, suplementos temáticos e peças do nosso espólio artístico. A sessão de abertura contou com uma conferência do historiador José Pacheco Pereira, que recordou a importância vital da imprensa regional para a saúde da democracia — num tempo em que tantos jornais locais desaparecem, silenciados pela falta de recursos e de apoio.

    Encerramos assim 2025 com boas notícias e um sentimento de gratidão. Foi um ano de muito trabalho, de adaptação constante aos desafios que se colocam à comunicação social — e especialmente à imprensa regional. Em tempo de balanços e de desejos, deixamos o nosso: que as nossas notícias continuem a chegar aos leitores, e a tempo. Sabemos que estas vivem da atualidade e os atrasos na distribuição, por parte dos Correios, têm comprometido esse elo essencial, levando à perda de assinantes e colocando em causa a sustentabilidade dos jornais.

    Que 2026 traga mais boas notícias, também neste campo. E que nunca falte coragem, vontade e liberdade para continuar a contar as histórias da nossa região e da comunidade.
    Boas festas!

  • Inside the heart and soul of Poço dos Sabores

    Inside the heart and soul of Poço dos Sabores

    Alison Krupnick

    Fabio Fidalgo dreams of inviting his grandmother to his restaurant to sample his cozido, the classic Portuguese stew inspired by the ones he grew up eating at her table.The 41-year-old self-taught chef and restauranteur, who cites British chef Jamie Oliver as his other seminal influence, mixes Portuguese home cooking with London innovation and hospitality at his restaurant, Poço dos Sabores. Look no further than his cauliflower puree, which has been described as “eating a cloud, or angel wings,” and the cozy wooden and stone dining environment, and you’ll see what he and his team are trying to achieve.
    Four years ago, in the midst of the COVID-19 pandemic, after weeks of contemplation, Fabio and his partner Sonia Melo took a leap of faith and decided to rent the vacant restaurant in their home village of Usseira. When they finally mustered up the courage to contact the landlord, they were told the place had been rented a few hours prior to their call. But destiny has a way of making her presence known.That rental fell through, and in November 2021, Poço dos Sabores, nova gerência, opened its doors.
    Built around a well, Poço dos Sabores can be translated to mean “well of flavors.” Fabio saw no reason to call it something else, since name recognition is useful when launching a restaurant.
    Because for Fabio, it’s all about flavor, fueled by memory and instinct.
    This restaurant is not the anxiety-fueled dream of a prodigal son trying to vanquish his demons, like you see in the American television show, The Bear. Instead, it’s a deliberate effort to take what’s good – avó’s home cooking and international fine dining – to create an unforgettable experience. When you enter the rustic dining room, Fabio, Sonia, and team members Herson Tavares, Marta Luis, João Silva, and Thushara Sreekumar want you to feel at home.
    After stints working front of house at restaurants in Óbidos and elsewhere in the area, followed by a few years working for a fruit export business, Fabio moved to London, where his sister was living. He got a job at Jamie Oliver’s 15, a cocktail bar and restaurant with a cozy vibe. Thanks to the restaurant’s open kitchen set-up, when he wasn’t busy working as a waiter, or later, a bartender, Fabio could observe the chefs in action. And when they innovated, he was there, ready to taste their creations and develop an innate understanding of how to make flavors shine.
    Homesickness and Sonia pulled him back to Portugal, where he worked at a restaurant in Sintra and further incubated his dream. “I was always tasting,” he says.
    Soon after he opened Poço dos Sabores, Fabio and his team contracted COVID-19. It was, he admits, a shaky start to a business that is known to be precarious.
    Undaunted, Fabio slowly and deliberately learned all aspects of the business, such as where to source the highest quality products and how to effectively butcher meat and filet fish. “I’m a fast learner and I’m also resourceful,” he says modestly. Fabio spent the first two years working in the front of the house before moving into the kitchen.
    “I learned by understanding what real flavor is meant to be,” he explains.
    Take his cataplana, which devotees say is the gold standard for cataplanas. It’s rich with flavorful broth and seafood, and makes you want to dive into the pot and fully immerse yourself in the taste sensation.
    In fact, listening to Fabio describe his approach to menu development makes your tastebuds tingle. He changes the menu every three to four months and will try things out as specials first to see what is popular. Orange sweet potatoes were a hit; celery root, unfamiliar to many diners, was a harder sell. But Fabio doesn’t take it personally. He balances innovation with a desire to please and judging from his popularity with Portuguese and international diners, he’s succeeding.
    You won’t find a prato do dia on the menu – the commitment to sourcing the highest quality ingredients is incompatible with the concept of a cheap meal. And, unlike most Portuguese restaurants, Poço dos Sabores isn’t closed for dinner on Sundays and Mondays. The clientele is a mixture of Portuguese and other nationalities and, depending on what is happening at nearby Óbidos castle, the restaurant can be very busy.
    Waiter Herson Tavares will often report that diners say the food they are eating reminds them of their own avós. Fabio says the biggest surprise he’s experienced since opening his own restaurant is how many patrons ask for the opportunity to thank him.
    The afternoon we spoke, Fabio was planning to make arroz de camarão for his grandmother’s dinner. If she liked it, it may eventually appear on the Poço dos Sabores menu.
    When he thinks about the future, in addition to innovation, Fabio wants to stay focused on consistency. “As long as I’m in the kitchen, nothing will change,” he says. “I’ll keep buying the best ingredients and make them taste the best that I can.”

  • Entre ondas gigantes e microscópios: a ciência que move o Oeste

    Entre ondas gigantes e microscópios: a ciência que move o Oeste

    António José Correia
    Ex-Autarca

    Nesta edição que a Gazeta das Caldas dedica à Ciência, volto o olhar para o Oceano como fonte de conhecimento, inovação e futuro. Na nossa região, e no Oeste em particular, esta relação é especialmente intensa: aqui, a ciência faz-se no mar e com o mar, ligando investigadores, comunidades e ecossistemas.

    A tecnologia e o surf, por exemplo, aproximam-nos da ciência. O projeto Big Wave Tracker desenvolveu uma metodologia inovadora para monitorizar, em quase tempo real, as ondas gigantes da Nazaré, fornecendo dados essenciais para apoiar a indústria do surf, quer em contexto competitivo quer em performances fora de competição, e oferecendo simultaneamente à investigação científica informação crucial para a compreensão de fenómenos extremos e dos seus impactos na zona costeira. Trata-se de uma iniciativa nacional, liderada pelo CoLAB +ATLANTIC, com o apoio do Fórum Oceano e do Município da Nazaré, que poderá tornar-se um projeto-piloto à escala mundial, demonstrando uma forma inovadora de aplicação de métodos científicos ao surf e com potencial de replicação noutros locais, graças à sua portabilidade.

    E, no passado sábado, a Nazaré – onde estive – voltou a surpreender o mundo com o Tudor Nazaré Big Wave Challenge, organizado pela World Surf League, num espetáculo de energia oceânica que transforma a Praia do Norte num verdadeiro laboratório natural. (Só para se ter uma ideia do impacto, as publicações no Instagram terão gerado um alcance potencial estimado superior a 100 milhões de visualizações.)

    A ligação da ciência ao surf reforça-se ainda com o trabalho – já aqui referido – da Hope Zones Foundation, em colaboração com a WSL PURE, que promove a regeneração de ecossistemas costeiros, nomeadamente através da reflorestação de algas marinhas em Peniche e Nazaré. Esta iniciativa alia conservação, investigação e ação comunitária, elevando a importância ecológica e social da nossa faixa atlântica. Complementarmente, projetos como o SeaForester contribuem para restaurar florestas marinhas essenciais à biodiversidade e à resiliência climática.

    Dezembro é também mês de celebrar conquistas da ciência feita na região. No dia 10, projetos do grupo MARE-IPLeiria foram distinguidos no Prémio Inovação Expo Fish Portugal, organizado pela DOCAPESCA.

    O projeto FoodCycleIn, coordenado por Filipa Pinto e Sónia Barroso, recebeu Menção Honrosa na categoria “Novos Produtos Alimentares do Mar”.

    Já o projeto PROVA, dedicado ao desenvolvimento de produtos inovadores a partir da aquacultura sustentável de ouriços-do-mar, conquistou o 1.º lugar, coordenado por Sílvia Lourenço e com a colaboração de Ana Pombo, Inês Lisboa, Marta Neves e Susana Mendes.
    Um reconhecimento que honra o talento, a criatividade e o compromisso da ESTM com a sustentabilidade dos recursos marinhos.

    Num mês de partilha — e de prendas — deixo duas sugestões: Espécies Marinhas de Portugal, de Nuno Vasco Rodrigues, obra de referência com 734 espécies e cerca de 800 fotografias (nunovascorodrigues@gmail.com); e O Rei e o Pescador, de Sandra Santos, um livro infantil com uma história que sensibiliza desde cedo para o cuidado com o mar (FNAC).

    A ciência que nasce do Oceano inspira-nos, protege-nos e guia-nos. Que o novo ano traga mais conhecimento, mais sustentabilidade e sempre… mais Mar.

  • Arquivos do saber

    Arquivos do saber

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    A viagem pelos arquivos que prometi, não podia, na presente edição, deixar de fazer uma pequena incursão pela Ciência. E, felizmente, os arquivos que tenho trabalhado, além da ciência arquivística, têm-me levado a descobrir a história de várias áreas científicas e da produção do conhecimento, incluindo-se entre os arquivos do saber. Este tem sido o nome adotado para designar conjuntos documentais que guardam a produção científica dos investigadores e, por isso, a forma de fazer Ciência, incluindo os aspetos identitários e de construção da comunidade científica.

    Foi pela atividade médica, que Fernando da Silva Correia foi colado à Ciência. No entanto, foi também pela mão da História reconhecido como investigador pela academia e pelo estado português, ao ser equiparado a bolseiro do Instituto para a Alta Cultura (1939-1944). O seu arquivo inscreve-se com facilidade na proposta anterior, pois através dele define-se um conjunto de práticas associadas à sua produção científica e a comunidade em que o investigador estava inserido.

    Essa investigação financiada, a que interessava particularmente a profunda remodelação da assistência em Portugal, associada a uma intervenção oficial, promovida pela coroa, em que a rainha D. Leonor foi “a precursora da assistência social moderna”, constitui o exemplo mais completo de um projeto passível de reconstituir, desenvolvido por este médico. Os seus relatórios periodicamente enviados ao Instituto, dão conta dos avanços: as fontes e bibliografia consultada; a solicitação de apoios para aceder, no estrangeiro durante a II Guerra Mundial, a documentos fundamentais; ou a preparação de obras, contribuindo para a sua missão de “vulgarização” de fontes.

    Ao escrever esta obra, Fernando da Silva Correia assumiu-se abertamente positivista e caraterizou o campo historiográfico em que trabalhava. Encarava a recolha de “provas” como uma das “dificuldades” da disciplina, pois considerava que “os factos históricos” podiam estar impressos em diferentes documentos ou objetos patrimoniais. E, ainda que considere Origens e formação das Misericórdias portuguesas (1944 e 1999) – principal fruto da investigação mencionada – uma obra de história, foi em revistas de especialidade médica, como a Ação Médica, que foi publicando trabalhos sobre o tema.

    Por fim, é também através da correspondência dos seus leitores, que é possível perceber a receção da obra, entendida por alguns como “monumental e de tanto saber”, tendo recebido uma menção honrosa do prémio Alexandre Herculano, atribuída pelo Secretariado Nacional de Informação. Hoje é lida, maioritariamente, por medievalistas, mas a verdade é que, juntamente com muitos outros trabalhos sobre a rainha D. Leonor, desvenda o papel de Fernando da Silva Correia na reabilitação da nossa fundadora, contribuindo para que, este ano e na historiografia mais recente, tenha sido tão celebrada. Esta foi uma das ideias que defendi no Congresso Internacional “O Mecenato da Rainha D. Leonor. Arte, Poder e Devoção no V Centenário da sua Morte”, que passou pelas Caldas no passado dia 29 de novembro.

  • Caldas  Doce  Caldas

    Caldas Doce Caldas

    Ana Sofia Reboleira
    Diretora convidada

    Nada e criada, quem vos dirige esta edição da Gazeta é uma filha da terra. Às Caldas tornei, depois de muitos anos passados em instituições de ensino superior em vários cantos do mundo. Ao longo de todo o percurso sempre houve um prazer semanal raramente abdicado – ler a Gazeta! A imprensa local tem o dom da proximidade, e é esse o seu insubstituível valor, o de preservar a história recente de um território. Caldas deve a sua génese a uma Rainha e a uma falha. É a geodiversidade que fornece o substrato identitário da cidade, desde a falha geológica por onde emergem as águas termais, à abundância de argila que potenciou a cerâmica. O reconhecimento do território pela UNESCO como Geoparque e como Cidade Criativa do Artesanato e das Artes Populares, reverbera isso mesmo. A menos de uma hora da capital, Caldas brinda os seus habitantes com uma qualidade de vida singular, assente num território natural extraordinário, de clima ameno e paisagens deslumbrantes sobre o oceano. É berço de espécies únicas, que importa conservar, a par da fixação de polos de inovação de base tecnológica e científica, abrindo caminho ao desenvolvimento de um futuro mais sustentável e em maior harmonia com o meio que nos rodeia. Esta edição, para além do registo da atualidade local, procura também iluminar o valor natural, cultural e humano da nossa terra, uma ínfima parte daquele que a Gazeta tem sabido dignificar ao longo dos seus 100 anos de atividade. Obrigada a todos os que fizeram e fazem a Gazeta, parabéns pelo centenário.

  • O futuro do Oeste começa na forma como o contamos

    O futuro do Oeste começa na forma como o contamos

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    Durante anos, o Oeste foi construindo uma identidade própria, que ultrapassa fronteiras e mapas administrativos. É uma região que se reconhece na diversidade. Vai das ondas da Nazaré às muralhas de Óbidos. Passa pelas praias de Peniche, pelos pomares do Bombarral e pela indústria de Torres Vedras. Mesmo dividida entre dois distritos, Leiria e Lisboa, partilha um sentimento comum de pertença. Essa identidade, conquistada com o tempo, nem sempre se tem traduzido numa comunicação coerente. Falta-lhe unidade para afirmar o Oeste como um todo.

    A comunicação regional não pode ser vista como a simples soma das comunicações locais. Cada concelho deve contar as suas próprias histórias, valorizar as suas gentes e promover os seus eventos. Mas é preciso um olhar mais integrado, que perceba que o sucesso de um concelho reforça o de todos os outros. Não há inimigos no território. Há vizinhos que partilham o mesmo destino. O desafio está em transformar essa vizinhança numa rede de cooperação comunicacional que amplifique a voz coletiva da região.

    Ao longo dos últimos anos, a marca Oeste conquistou reconhecimento. Foi um trabalho paciente, de construção de imagem e de identidade. Porém, essa conquista não tem sido suficientemente aproveitada. Falta-lhe continuidade e uma narrativa agregadora que una o território sob um mesmo propósito, o de comunicar o Oeste como uma região inovadora, sustentável e com qualidade de vida.

    A comunicação de território não se resume à promoção turística. É também comunicação económica, científica, cultural e social. É mostrar o que se faz de melhor nas empresas, nas escolas, nas autarquias e nas instituições que dão corpo à região. É dar visibilidade ao conhecimento e à criatividade que aqui nascem. E é, acima de tudo, criar um sentimento de orgulho coletivo, o de pertencer a um lugar que tem futuro.

    É tempo de pensar num modelo de comunicação mais coordenado, eventualmente até num gabinete de comunicação regional, no seio da OesteCIM, por exemplo, que possa agregar e difundir as mensagens mais relevantes dos municípios e das suas comunidades, porque são o Oeste e porque fazem o Oeste. Um espaço que ajude a construir uma narrativa comum e a (re)posicionar o Oeste no mapa das regiões mais dinâmicas do País.

    O Oeste é mais do que um nome geográfico construído nos últimos anos. É uma ideia de equilíbrio com identidade e de proximidade com talento. E, como todas as ideias, precisa de ser comunicada. Porque só comunicando em conjunto conseguiremos projetar o futuro que esta região merece.

    Capitalizar as potencialidades é uma obrigação de todos.

  • OesteCIM lembra utilizadores da obrigatoriedade de renovar anualmente o Passe M

    A OesteCIM informa que todos os utilizadores com Passe M ativo (exceto jovens até aos 24 anos) devem proceder à renovação anual do seu título de transporte.

    A renovação deve ser realizada até dois meses antes de perfazer um ano desde o primeiro carregamento do passe. Por exemplo, se o primeiro carregamento ocorreu em março de 2024, a renovação deverá ser efetuada até janeiro de 2025.

    No ato de renovação, o utilizador deverá apresentar um novo comprovativo de residência, local de trabalho ou estudo na região Oeste, garantindo assim a manutenção das condições de acesso ao Passe M. A entrega da documentação deve ser feita numa bilheteira física do operador onde o Passe M foi inicialmente solicitado.

    Para mais esclarecimentos, a OesteCIM disponibiliza uma página de FAQs dedicada ao Passe M, onde poderá consultar questões como: “Qual a validade do Passe M?” e “Como procedo após a validade do meu Passe M expirar?”, entre muitas outras.

    Poderá consultar todas as perguntas e respostas aqui: https://oestecim.pt/2002/perguntas- frequentes-faqs-passe-m

    A OesteCIM recomenda que todos os utilizadores verifiquem atempadamente a data do primeiro carregamento do passe, de modo a garantir uma renovação simples e sem interrupções no acesso ao serviço de transporte.

  • Quando faltam as palavras há o grito

    Daqui escreve-se de um lugar cansado. Com corações estilhaçados e as mãos trémulas da raiva. Não há tantas palavras que se possa ainda escrever uma dor que é escrita há tanto tempo quanto o tempo dos impérios.

    Não há tantas palavras quantas as que são precisas para descrever o peso de uma chave carregada ao peito por quase um século à espera de abrir a porta de uma casa que já nem é paredes.

    Se arrastarmos as palavras de Angola a Moçambique, de Moçambique à Palestina, elas terão sido ditas tantas vezes quanto aquelas que ignorámos.

    Não há tantas palavras que se possa gritar a força dos corpos famintos que ainda resistem.

    Não há tantas palavras que se possa silenciar o conforto de deixar morrer quem está para lá das fronteiras.

    Não há tantas palavras quantas as que seriam precisas para lembrar o que é ser vivo.

    Não há tantas palavras que se possa descrever o apodrecer da humanidade no regozijo do consumo vazio com que se engole a terra.

    Não tantas palavras que se possa descrever toda a história que nos roubaram.

    Não há tantas palavras que possamos gritar a história de quem roubámos.

    E, enquanto se nos vão acabando as palavras, no meio do horror ficam tantos gritos por serem ditos que vamos morrendo afogados nas palavras que não dizemos e nas lutas que não fazemos.

    E, enquanto se nos vão acabando as palavras, há um povo que grita a sua existência e faz ecoar no mundo todas as palavras que fomos esquecendo.

    Palestina Livre Caldas

  • Um Autorretrato: os Caldenses e o Comércio Local

    Um Autorretrato: os Caldenses e o Comércio Local

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    Recentemente ouvi, na rádio, um anúncio dedicado à época que vivenciamos nos últimos meses do ano. Não era apenas sobre o espírito de Natal: falava também do espírito de família e da essência do bem. Recordava-nos que, agora mais do que nunca, é necessário praticar boa ações, ser honesto, generoso e atento ao próximo. É uma mensagem que, pessoalmente, me toca profundamente, devendo ser merecedora de foco ao longo de todo o ano. Seria extraordinário que a bondade se tornasse, ela própria, um presente para transformar a nossa atualidade. Vivemos tempos conturbados, que exigem dedicação, atenção, cuidado e afeto.

    O melhor presente é, de facto, estarmos junto dos nossos e podermos partilhar momentos distintos e únicos. Dedico este texto a duas vertentes próximas entre si: a sentimental e a do comércio – também ele carregado de sentimento. Em forma de apelo, estes dois eixos traduzem aquilo que é criado e exposto com genuíno empenho. O comércio local é uma esfera que precisa de si e de todos nós. Porque não apostar nele? Mais do que nunca, nesta época, é o comércio local que dá voz à nossa cidade, à nossa comunidade e, no fundo, é o nosso próprio autorretrato enquanto Caldenses.

    Por experiência própria e através do que observamos diariamente, é impossível não notar a dedicação dos comerciantes em alegrar as ruas, elevar o espírito festivo e destacar os seus produtos – tão autênticos quanto quem os cria. Este empenho merece recompensa. Dezembro é mês de festa, de cultura e de tradição. Saia à rua. Descubra os pormenores das montras que iluminam a nossa calçada. Visite os mercados de Natal, onde a arte se revela em mãos dedicadas e em múltiplas expressões. Esteja com os seus. Abrace o próximo – um gesto simples, mas fundamental.

    A arte, sobretudo nestes dias, sai de casa e ocupa as ruas. Tal como eu, muitos criativos dedicam esta época a elaborar e a mostrar o melhor que têm para oferecer. E não são só eles: também as associações procuram marcar presença com os seus produtos e projetos. Quero, por isso, destacar a ÁGORA – Associação Ambiental, que lançou no passado dia 6 de Dezembro o livro O Clube das Sementes Mágicas. A obra apresenta seis árvores do concelho de Caldas da Rainha enlaçadas a seis contos infantes que tratam a natureza como elo de ligação à comunidade.

    Despeço-me com um agradecimento a todos os leitores que têm acompanhado estas pequenas crónicas. Desejo, a todos, votos de boas festas e de excelentes entradas no novo ano.

    E lembre-se: às vezes, um abraço vale mais do que tudo.

  • As Cidades Ocultas

    As Cidades Ocultas

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Em dezembro, as cidades acendem-se como se temessem o escuro. Mas há quem fique, mesmo assim, na escuridão. As ruas brilham, os centros históricos tornam-se cenários fotogénicos e os comerciantes aguardam que as luzes puxem pelas vendas como quem acende uma vela a pedir sorte. Eu olho para esse brilho e penso sempre na sua ambiguidade: a luz que revela e a luz que esconde.

    É nessa claridade excessiva que se disfarçam as cidades paralelas — as que não aparecem nas fotografias. Estão nas portas onde não há coroa de Natal porque falta dinheiro, nas janelas apagadas de quem vive só, nos bancos de jardim onde alguém passa a noite embrulhado em silêncio. Enquanto a cidade oficial desfila em avenidas iluminadas, a outra sobrevive nos interstícios que ninguém quer ver.

    Nesta altura do ano, a generosidade ganha palco entre campanhas e jantares solidários. E ainda bem. Mas há algo delicado nesta coreografia da bondade sobre uma cidade que nem sempre ilumina todos os cantos. O Natal parece, por vezes, uma luz que toca apenas alguns, enquanto muitos permanecem à sombra da sua claridade.

    A pobreza, mesmo assim, não desaparece com um cabaz; apenas se adia por uns dias. Há quem leve para casa a sopa quente da noite e, ainda assim, durma num quarto sem aquecimento, ou volte no dia seguinte para a mesma fila. A boa vontade aquece a noite — mas não muda o inverno. Sem estruturas, a caridade consola sem transformar.

    E há ruas onde dezembro não traz pausa, só mais pressa. As mesmas pessoas atravessam a chuva para trabalhar em turnos longos, embrulhadas em horários que não conhecem vésperas nem ceias. Enquanto a cidade celebra, há quem conte moedas, quem adie consultas, quem apague a árvore antes mesmo de a montar. Nessa altura do ano, a desigualdade não muda de rosto — apenas fica mais visível.

    E ainda assim, há clarões que não vêm dos postes. A vizinha que leva sopa ao idoso do terceiro andar. O voluntário que insiste em bater à porta de quem desistiu de ser visto. O desconhecido que pergunta, com desconforto sincero: “Está tudo bem?”. Pequenas lanternas humanas que, juntas, desenham caminhos antes invisíveis.

    A verdadeira iluminação urbana nunca esteve nos cabos nem nos LED. Está nos encontros que a cidade permite, nas escolhas que faz, nas prioridades que assume. Há cidades que brilham. E há cidades que veem.

    Talvez dezembro nos sirva para isso mesmo: atravessar a cidade visível e ter coragem de entrar na cidade oculta. A questão é saber se, quando as luzes se apagarem, continuaremos dispostos a olhar.

  • Who You Gonna Call?

    Who You Gonna Call?

    Terrie Clifford

    A German man in Peniche sees seagulls pecking at a dead pigeon. Could it be bird flu? He wonders who to call. A woman from the US in Lourinhã feels chest pain; her heart is racing. With phone calls to the same central number, the bird is safely removed and the woman is whisked to the hospital. Both problems were resolved by highly trained emergency responders unique to their communities. Meet the Bombeiros.

    Across Portugal, the Bombeiros are the first responders to vehicle collisions, urgent medical issues, and residential and commercial fires. They rescue residents during storms and floods, transport the sick, and spend hot summers battling wildfires.

    95% of the 42,000 firefighters in Portugal are volunteers. Lawyers, shopkeepers, construction workers—even mothers: several times a month they risk their lives for work without pay, sometimes depending on donated equipment. Bombeiros also undergo hundreds of hours of training each year. Named after the bomba (pump), their history begins in a 1395 charter from King Joao I. Our local squads get money from the EU, state funds, municipal budgets, and generous individuals. The departments are as unique as the communities they serve. Here are profiles of leadership and capabilities in Caldas da Rainha, Lourinhã and Peniche.

    The Caldas Bombeiros are strongly anchored in their community. The department runs a public pool and gym. Comandante Nelson Cruz leads the team with an easygoing manner honed by 31 years of experience. “This is something I have wanted to do since childhood,” he said. His career has been dangerous and demanding. But he got to help deliver eleven babies in ambulances. One grateful couple made him their child’s godfather. Cruz heads a staff of 121, 32 are female, and the majority are volunteers.

    His department traveled to fight 65 wildfires outside of Caldas this year. “The wildfires are getting worse, because of climate change” he noted. Although the Caldas department receives funding from national, state and local sources, they rely on community donations to serve the department’s 255 square-kilometer coverage area. This year’s community door-knocking campaign raised 140,000 euros.

    The Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntarios da Lourinhã is housed in an enviable complex with a building for structural fire training, a farm to feed the crew, and the only certified heliport operated by a fire department in Portugal. Cidália Fonseca, Lourinhã’s second-in-command, says the department is proud the heliport has hosted helicopter rescue operations, the Portuguese National Guard helicopter and numerous wildfire missions, but they are most proud that they built the heliport themselves. Fonseca’s 24-year career in firefighting fuels her priorities for her team: “Security, Safety, Knowledge.” Cutting-edge training helped them rescue an injured worker from a wind turbine.

    The Lourinhã squad covers an area of 148 sq.km with a staff of 70. 18 are women. Lourinhã sends crews to fight wildfires as far as Madeira and even Ukraine. Providing equipment, fuel and continuous training is costly, Fonseca said. The department raised 50,000€ this year through their events. Next goal: replacing their 20-year-old helmets at a price of 475€ each.

    The Corpo de Bombeiros de Peniche is unique in several aspects. They have the largest percentage of female firefighters, 39 of 94, and their staff includes the youngest woman in a leadership position. Inês Teixeira was 16 when she joined 16 years ago; now she is a member of the command staff. She said the volunteer work combines two of her early interests: the need to help people and a taste for adrenaline.

    Their Peniche HQ faces the sea, a constant reminder that the coast is a huge part of their 77.5 sq.km coverage area. They also serve the offshore Berlengas islands, transporting the injured back to the mainland. They are trained in sea rescue, underwater search, and technical rope missions in the cliffs—on top of the mainstays of structural firefighting and EMT. The department is funded by the community, the city of Peniche and national sources. Peniche’s many beaches result in the town’s population tripling from June to October, stretching the department thin. Still, Teixeira said they manage to send units into the summer wildfires. She wants people to remember Bombeiros give up time with their families to serve others even on holidays.

    Many squads are active on social media (FB,IG). Follow for news about upcoming fundraisers. Donations are always welcome.

    How to Report Your Emergency
    Dial 112, the unified dispatch for police, fire, and ambulance. English and more are spoken. Calls route to regional call centers. Be ready to tell the operator the nature of your emergency, exact address, nearby landmarks, and the phone number you are calling from. They will activate the appropriate local responders. Speak slowly, answer all questions, and stay on the line until the operator tells you to hang up.

  • Caldas da Rainha – Que desafios? A partir de breves reflexões para pequenos contributos…

    “(…) As memórias são
    como livros escondidos no pó.
    As lembranças são
    os sorrisos que queremos rever, devagar (…)”
    Memórias de um beijo
    Trovante

    De alguns anos a esta parte, temos olhado para uma Caldas da Rainha com uma problemática de identidade enquanto cidade/ concelho, com uma falta de desígnio estratégico e com os custos sociais e económicos que isso impacta.

    Foi “cidade comercial” e basta andarmos pelo círculo central urbano e observarmos o comércio que temos (ou que vamos perdendo) ou a dinâmica da cidade (ou a falta dela) a partir de determinadas horas do dia. Tenta – se reinventar com o “bairro comercial digital” mas, entretanto, vamos perdendo concorrencialmente com outras cidades ou com alterações de mobilidade e até do próprio perfil da nossa própria população residente ou ainda com a influência do comércio digital.

    Foi “cidade termal” e basta percecionar a falta de influência da oferta termal na dinâmica da cidade, apesar da natureza das nossas águas e, por exemplo, da oferta formativa de uma escola profissional. Tentou – se reinventar com a integração num conjunto de fóruns nacionais e internacionais sem que isso acrescentasse valor à própria oferta termal e à sua dinâmica.

    Foi “cidade cerâmica” e basta ver a importância da intervenção artística de alguns dos nossos ceramistas a nível nacional e internacional, a pujança de uma ou mais “marcas” nesta área de atividade, a instalação da “rota bordaliana” e a presença de um centro de formação e até de uma universidade muito qualificadas e reconhecidas sem que isso se repercuta significativamente na dinâmica da cidade, na sua produção de valor e na interação com os outros sistemas anteriormente falados.

    Sem uma reflexão aberta e abrangente sobre um diagnóstico sobre a cidade, um plano de desenvolvimento a prazo onde seja definido claramente um propósito e um percurso para esse propósito e uma liderança forte nesse propósito e nesse percurso, vamos assistindo a consequentes perdas de oportunidade para a nossa cidade, nomeadamente ao nível da sua identidade cultural, que é aquilo que constitui o “cimento” das nossas comunidades, com as referidas consequências sociais e económicas.

    Tudo isto a partir de uma ideia ou de um pressuposto de que temos recursos naturais, ambientais, sociais, económicos e humanos excelentes para projetar um desígnio estratégico diferenciador para as Caldas da Rainha.

    Às vezes, temos e realizamos boas ideias que se vão perdendo com o tempo ou com a falta de incentivos – deixando aqui alguns breves e díspares exemplos, a celebração do “falo”, a “festa da cerâmica”, a feira da fruta, o festival de Jazz, a “praça à noite”, a “festa da primavera” (ou das andorinhas), o “Caldas Late Night”, os diferentes espetáculos/ torneios desportivos, a “Gala do Desporto, Exercício e Atividade Física”, Feira do Cavalo Lusitano ou até o centenário da Gazeta das Caldas e outros, assim como a presença de instituições/ associações como os diferentes museus, as diferentes galerias, o Centro Cultural e de Congressos, o Teatro da Rainha, a Banda de Comércio e Industria, as bandas das diferentes freguesias, os clubes desportivos e as associações locais, os agrupamentos escolares, as escolas e centros de formação profissional, a universidade, a Escola de Sargentos do Exército, igualmente entre outras instituições -, constituindo estes como exemplos para a afirmação da cidade, ligando autores/ artistas à identidade da cidade, permitindo encontros e reflexões entre os vários “stakeholders” e com a comunidade.

    Estas iniciativas, em minha singela opinião, não têm criado as devidas sinergias ou, pelo menos, não têm sido potenciadas como afirmação de uma cidade e de um concelho porque lhes falta precisamente a sua apreensão cultural pela comunidade e/ ou a lógica de as vermos como um circulo de produção e oferta integrados, abrangendo vários agentes, ou ainda como diria o Dr. António Costa e Silva, a falta de um “ecossistema” que potencie os recursos aqui apontados e a sua energia criativa, traduzindo – se em dinâmica para a cidade e para o concelho.

    E isto é importante para o presente no sentido de afirmação da cidade/ concelho, de melhorar a sua dinâmica e a sua comunidade, instituições e empresas mas sobretudo para preparar Caldas da Rainha para o futuro breve, onde se mantêm/ adicionam muitos problemas estruturais por resolver – caminhos de ferro, hospital, termalismo, turismo (incluindo a reabilitação dos pavilhões do Parque), reconceptualização da Praça da República e da atual Praça do Peixe, zona(s) empresarial (ais), Lagoa de Óbidos, preparação para as alterações climáticas, entre outros.

    Penso que é necessário uma reflexão sobre esse desígnio estratégico, estabelecendo prioridades de ação e ir construindo sinergias e redes de cooperação até a partir de pequenos exemplos, contributos e iniciativas implementadas noutras cidades/ concelhos. Às vezes, não é preciso “inventar a roda…”, mas é preciso agir e onde uma estratégia de comunicação não é uma questão de menor importância.

    António José Ferreira, Sociólogo

  • Natal – O renascer da vida

    Natal – O renascer da vida

    António Marques
    Técnico de Turismo

    O natal nasce quando os povos antigos começaram a festejavam o despertar da vida no virar do ano e os dias começavam de novo a crescer.

    A festa do Natal não estava incluída entre as primeiras festividades da Igreja.

    Somente no século 5º foi oficialmente ordenado que o Natal passaria a ser uma Festividade Cristã, no mesmo dia da secular tradição Romana que honrava o nascimento do Deus Sol.

    O Natal organizado teve origem nas Grandes Festas da Brumália (25 de Dezembro), que seguiam as não menos famosas Saturnálias (17 a 24 de Dezembro) e comemorava o nascimento do deus sol, no dia mais curto do ano.

    As festividades Pagãs das Saturnálias e Brumália estavam demasiadamente arraigadas nos costumes populares para serem suprimidos pela influência Cristã.

    Antes do século 4º os cristãos eram poucos, embora estivessem em afirmação e crescimento, e eram perseguidos pelos governos e pelos pagãos.

    Porém, com a Coroação do imperador Constantino (no século 4º) que se declarou Cristão, elevou o Cristianismo a um nível de igualdade com o Paganismo.

    Tenhamos em conta que o Povo Romano tinha sido educado nos costumes Pagãos, sendo o principal, a Brumália celebrada a 25 de Dezembro que era uma festa de renascimento da vida muito especial.

    Foi assim que pouco a pouco, assimilando as Saturninas e a Brumália, o Natal se introduziu-se no nosso mundo, assimilado pela Igreja Católica.

    O PAI NATAL significa uma lenda baseada em Nicolau, bispo católico do século 5º, segundo a qual presenteava ocultamente três filhas de um homem pobre, dando origem ao costume de oferecer em segredo as prendas na véspera do dia de São Nicolau (6 de dezembro), data que depois foi transferida para o dia de Natal.

    No desfolhar das estações do ano, a natureza vai-se vestindo de mil cores, dando forma à cultura dos povos, cimentando os costumes e as tradições que afinal constituem e animam a nossa existência.

    São múltiplos e variados os sinais, os gestos as expressões e as mensagens que afirmam ser o Natal um dos mais belos acontecimentos que dá sentido às nossas vidas e oferece encanto e alegria às famílias e aos Amigos, essa outra família que nós voluntariamente abraçamos.

    Dos tempos antigos e da história de Belém, herdamos as tradições, as formas e os gestos de celebrar todos os anos a Natividade.

    Em pequenos nadas revelamos o nosso gosto e até a nossa arte, o encanto e a verdade com que festejamos o Natal, percorrendo os caminhos da proximidade entre os homens, num misto de efémero e absoluto que enche os nossos corações na noite da consoada.

    O Natal sugere-nos atitudes e actos de generosidade para aqueles que nos rodeiam, e por isso lembramos as vítimas de todas as formas de agressão de todas as guerras.

    Natal significa solidariedade, amor e carinho, no seio da família dos Amigos dos Colaboradores e também paz connosco e com os outros e um forte apelo à construção de um mundo melhor para todos, especialmente para os que sofrem com as doenças, as incompreensões, as injustiças morais e as necessidades materiais do dia a dia.

  • A importância de transmitir limites

    A importância de transmitir limites

    Lurdes Pequicho
    Educadora de Infância

    As notícias que têm surgido ultimamente em relação a agressões de filhos para com os pais têm aumentado e acredito que muito tem a ver com os limites e com a dependência entre gerações. A APAV, divulgou que entre 2022 e 2024, registaram 5.654 casos de violência de filhos contra pais e que cerca de 48% não apresenta queixa às autoridades judiciais, provavelmente por vergonha e por se sentirem culpados.

    O que são afinal os limites? No meu entender é uma linha imaginária que limita o fim de alguma coisa. Uma linha que separa o que o outro quer fazer e o teu limite pessoal. E tendo em conta, que acredito plenamente que as crianças aprendem pelo exemplo, o que fará uma criança que vê o pai a bater-lhe ou a bater no irmão, quando tem algum comportamento desajustado? Ou quando a criança tem tudo o quer e uma vez é contrariada e pressionada? Será que vai saber lidar com isso?

    Ouvi uma vez uma analogia sobre os limites que me pareceu bastante elucidativa. Se quisermos passar um desfiladeiro de um lado para o outro e existirem duas pontes de madeira, uma com cordas para nos apoiarmos e outra sem cordas, apenas as tábuas de madeira juntas umas às outras, qual é que nós escolhemos?

    Muito provavelmente, escolhemos a que tem as cordas. As cordas significam os limites, os limites que orientam, que mostram por onde podemos ir e que nos transmitem segurança. Os limites mostram o caminho a seguir com segurança e permitem antecipar o que se pode esperar do outro lado. Por isso, acredito que as crianças têm de aprender a lidar com contrariedades e terem essa possibilidade com a orientação dos pais e não mais tarde em que a rede de apoio é menor e os riscos que correm são maiores. É importante as crianças perceberem até onde podem ir com os outros, para também elas saberem comunicar os seus limites e dizerem “não” quando alguém os ultrapassa.

    Quando quiseres comunicares os teus limites ao teu filho fá-lo com clareza e sê específico naquilo que pretendes que ele faça. Depois ouve a sua opinião e mostra-te disponível para o orientar no caminho certo. Confia nele para encontrar formas de executar esse limite e responsabiliza-o por essas escolhas. Deixa-o tentar, observa e reconhece os comportamentos desejados. Desta forma estás a envolve-lo no processo e o compromisso em cumprir será maior. Agora é praticar sem culpas, sem julgamentos e principalmente com muito amor e empatia.

    Com amor

  • Doenças cardiovasculares

    Doenças cardiovasculares

    Vítor Ilharco
    Personal Trainer

    As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de mortalidade no mundo, responsáveis por cerca de 17,9 milhões de mortes, e também lideram a mortalidade em Portugal – 28% das mortes a nível nacional. De todas as doenças cardiovasculares, o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) justificam 85% desses números. A maioria destes casos poderia ser prevenida através de mudanças no estilo de vida e a atividade física ocupa o topo dessa lista.

    O corpo humano foi feito para o movimento. Quando se mexe, o coração torna-se mais eficiente, o sangue circula melhor, e os vasos sanguíneos mantêm-se elásticos. O exercício ajuda a controlar a pressão arterial, melhora o perfil lipídico – aumentando o HDL (bom colesterol) e reduzindo o LDL (mau colesterol) e triglicerídeos – e regula a glicémia, prevenindo a diabetes tipo 2. Além disso, reduz a inflamação sistémica e melhora a função endotelial, dois mecanismos centrais na prevenção da aterosclerose — a causa principal do enfarte e do AVC.

    As evidências são claras: indivíduos fisicamente ativos têm menos incidência e menor probabilidade de morte por doença cardiovascular. Praticar atividade física moderada a vigorosa reduz o risco de doença coronária, isquemia cardíaca e enfarte em até 75%, comparando com pessoas inativas. E, mesmo quando não se cumpre o total das recomendações, fazer algo é sempre melhor do que não fazer nada.

    O exercício não precisa de ser complexo: caminhar a bom ritmo, pedalar, nadar, dançar ou subir escadas são gestos simples que acumulam grandes benefícios. O ideal é alcançar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana, podendo ser repartidos em blocos curtos de 10 a 15 minutos. Acrescentar treino de força duas vezes por semana reforça ainda mais a proteção cardiovascular.

    Mas o movimento não se resume ao treino. O comportamento sedentário — longos períodos sentado ou deitado — é, por si só, um fator de risco. Mesmo quem cumpre as recomendações de exercício irá ter um risco aumentado de doenças cardiovasculares se for sedentário no resto do dia. Por isso, levantar-se regularmente, caminhar um pouco entre tarefas ou trocar o carro por pequenas deslocações a pé faz uma diferença real.

    A ciência é inequívoca: o exercício é uma intervenção segura, acessível e eficaz. Não há outro “medicamento” capaz de reduzir simultaneamente o risco de enfarte, AVC, diabetes e hipertensã. O desafio é simples: mexer-se mais, sentar-se menos e fazê-lo de forma consistente. O seu coração agradecerá todos os minutos.

  • No mês do Mar: orgulho, inovação e desafios à região

    No mês do Mar: orgulho, inovação e desafios à região

    António José Correia
    Ex-Autarca

    Novembro foi um mês especialmente intenso na relação com o mar, marcado por iniciativas que reforçam a importância da economia azul no presente e no futuro das nossas comunidades. Começou de véspera com um momento profundamente marcante: no dia 30 de outubro, no 1.º Congresso Náutico Internacional da ACAP, em Mafra, recebi o Prémio “Farol 2025”. É um reconhecimento que partilho com todos os que têm caminhado comigo na valorização da náutica e na promoção de um setor mais sustentável, inclusivo e próximo das pessoas. A apresentação feita por Garrett McNamara tornou o momento ainda mais especial. Das palavras generosas que me dirigiu, guardo esta frase que muito me tocou: “When Toze shows up, everybody starts feeling good around him… he brings this amazing, positive energy.” Um incentivo poderoso para continuar este percurso com dedicação e sentido de serviço.

    No âmbito do Mês do Mar, participei a 13 de novembro, na Cinemateca Nacional, na apresentação do Prémio “Mário Ruivo”, promovido pela Direção-Geral de Política do Mar. Enquanto membro da coordenação da Rede das Estações Náuticas, temos contribuído para divulgar esta iniciativa que desafia jovens a produzir vídeos sobre o Oceano, honrando uma das figuras maiores da ciência e da política marítima em Portugal. Desafio para a região: estimular e apoiar a participação de jovens na edição de 2026.

    A 15 de novembro associei-me à celebração do Dia Nacional das Conservas de Pescado, no Padrão dos Descobrimentos, a convite da ANICP. As conservas continuam a ser um símbolo da nossa identidade marítima: tradição, inovação, sustentabilidade, emprego e presença internacional. Na nossa região, em Peniche, está localizada a conserveira que mais exporta.

    A 19 de novembro, o auditório da ESTM voltou a ser ponto de encontro para pensar o futuro do turismo costeiro e azul, com a conferência “Por um Futuro Azul no Turismo Costeiro: Inovação, Oportunidades e Comunidade”. Especialistas, investigadores, estudantes e entidades locais refletiram sobre caminhos para um turismo mais sustentável e resiliente. No painel sobre valorização territorial, lancei um desafio à ESTM e ao Instituto Politécnico de Leiria: a criação de uma task force regional dedicada a liderar a reflexão estratégica sobre o turismo azul, articulando conhecimento académico, autarquias, empresas e comunidades.

    Outro momento inspirador foi acompanhar o estágio da seleção alemã de remo de mar (modalidade olímpica) na nossa baía de São Martinho do Porto, cujas condições naturais únicas a tornam cada vez mais um destino de excelência para treinos internacionais e modalidades de alto rendimento.

    Segui à distância os trabalhos da COP30, realizada em Belém. Apesar das expectativas, a conferência terminou sem compromissos firmes quanto à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e sem avanços concretos na proteção do oceano. Mas a lição principal foi clara: quando o processo internacional hesita, os territórios tornam-se protagonistas da ação climática. Municípios, regiões, instituições e comunidades estão hoje na linha da frente das soluções concretas.

    É precisamente isso que já se sente no Oeste. Na Nazaré, o projeto HOPE ZONES e a futura Nazaré Regenerative Seaweed Farm mostram como a inovação oceânica pode nascer aqui. Esta iniciativa junta cientistas, surfistas de ondas gigantes, investidores e comunidades piscatórias para testar o cultivo regenerativo de algas em zonas de alta energia, produzindo conhecimento inédito sobre sequestro de carbono, restauração ecológica e financiamento azul. A nossa costa torna-se, assim, laboratório vivo de soluções climáticas e económicas.
    Por tudo isto, deixo um apelo claro: que a OESTE CIM e o IPL assumam uma liderança partilhada na construção de uma visão regional para o oceano. O Oeste tem conhecimento, identidade, capacidade e ambição para ser território de referência na ação climática local, na inovação regenerativa e no turismo azul. O futuro do mar constrói-se também aqui — e depende de nós.

  • Arquivo(s), Biblioteca e Museu(s) de Óbidos. Uma Reflexão…

    Arquivo(s), Biblioteca e Museu(s) de Óbidos. Uma Reflexão…

    Ricardo Pereira
    Arquivista/Historiador

    Tendo sido responsável pelo Arquivo Histórico e, por inerência, do Arquivo Intermédio e Corrente do Município de Óbidos, e, igualmente, da sua Biblioteca Municipal, entre 02 de setembro de 2002 e 31 de janeiro de 2012, permite-me, com justa causa, fazer uma reflexão relativamente à realidade do património arquivístico, bibliográfico e museológico existente, nos dias de hoje, em Óbidos.

    Começando pelo espólio documental, de carácter histórico, localizado no Solar da Praça de Santa Maria/Solar dos Brito Pegado/Casa Malta (albergando, também, o tal Museu de Arte Sacra), acondiciona uma documentação, com datas extremas entre os séculos XIV e XXI, encontrando-se toda Inventariada, e que, acrescento, NUNCA PODE SER ELIMINADA, pois retrata a história, não só, do antigo termo de Óbidos como do atual Concelho de Óbidos. Quanto ao Arquivo Intermédio e Corrente (que devem estar, ambos os Arquivos, em estreita correlação) que se encontram armazenados, tanto no principal edifício camarário como em uma outra instalação camarária, localizada perto do Sobral da Lagoa, tem de haver uma constante Avaliação e Seleção dessa documentação que pode ser conservada ou eliminada, seguindo sempre o Regulamento Arquivístico para as Autarquias Locais, publicado, em Diário da República, na Portaria n.º 112/2023, de 27 de abril, que revogou a, já antiga, Portaria n.º 412/2001, de 17 de abril. Claro que a utilização, sempre constante, destas regras arquivísticas, atrás enunciadas, têm de ser compensadas pelo investimento, por parte do Município, na construção ou adaptação de um edifício, preferencialmente existente na Vila, de um ARQUIVO MUNICIPAL, com todas as condições ao nível de estantes/prateleiras, mais atualizada do mercado, para o acondicionamento/armazenamento de todo este acervo documental, riquíssimo e importantíssimo, criando condições, também elas únicas, de organização e acessibilidade aos utilizadores internos da Autarquia (os seus trabalhadores) como para os utilizadores externos (investigadores anónimos, académicos e estudantes universitários). Reflitam sobre este assunto!

    Quanto ao outro acervo documental, existente em Óbidos, o ARQUIVO HISTÓRICO DA MISERICÓRDIA, a sua organização e divulgação do seu espólio fala por si, sendo considerado um caso de sucesso no “universo” das Misericórdias Portuguesas.
    Por outro lado, um Município que recebe um Festival Literário Internacional, mais conhecido por FÓLIO, não pode apresentar uma BIBLIOTECA MUNICIPAL com total falta de condições para os seus leitores e visitantes. É um contrassenso difícil de perceber e, igualmente, de difícil compreensão para todos aqueles que vivem no Concelho de Óbidos e para todos aqueles que visitam todo o ano a Vila ou que apenas a visitam aquando da realização do FÓLIO (nestes dois casos, penso que as pessoas se possam interrogar sobre esta infraestrutura bibliotecária quase inexistente). Aqueles que são responsáveis, tentem refletir sobre uma nova localização digna de uma Biblioteca Municipal, com todas as valências necessárias para o acolhimento e aposta, preferencialmente, na literatura infantojuvenil, pois crianças e jovens do Concelho aculturados fazem exigir uma cultura integradora e pensante em Óbidos. Não descurando, claro, toda a outra literatura, sustentado por um Catálogo atualizado, de acordo com as regras bibliográficas e com o “mercado” literário português (aproveitando, para esse efeito, as novidades literárias trazidas pelo FÓLIO). Assim, sejam criativos! Por exemplo, aproveitem o edifício da Praça da Criatividade e façam desse local a NOVA BIBLIOTECA MUNICIPAL. Voltem a refletir sobre esta temática!

    Há dias fui visitar o renovado Museu de Arte Sacra da Vila de Óbidos e verifiquei que o conceito museológico continua o mesmo, apesar da introdução do digital. Óbidos já merecia um Museu que evidenciasse a componente histórica do seu Concelho, combinando as peças arqueológicas, que dispõem, com o acervo documental que, igualmente, possuí e claro complementado com as pinturas e outras peças artísticas, que detêm, podendo assim construir uma narrativa histórica coerente, séria e honesta da história do Concelho de Óbidos, ao longo dos tempos. Deveria haver, assim, uma interdisciplinaridade entre os quadros técnicos camarários, existentes, passando pela Arqueologia, pelo Arquivo Histórico e pela Museologia, pois só neste sentido pode haver uma abordagem científica séria para um NOVO CONCEITO DE MUSEU em Óbidos, tal como já acontece, com bastante sucesso, em outras localidades de dimensão igual ao burgo obidense. Reflitam, também nisto!
    E por último, gostaria de abordar o caso da COLEÇÃO DA GUERRA PENINSULAR, em que participei ativamente na elaboração do seu Inventário Geral (que já está concluído, desde 2008) interligando as peças museológicas já existentes na Câmara Municipal, desde os anos 70, com outras peças documentais, bibliográficas, iconográficas, cartográficas e, ainda, outras peças museológicas, existentes na chamada “Casa das Gaeiras”, pertencente aos descendentes de Frederico Ferreira Pinto Basto, que foi a principal “cabeça” para a criação da dita “Memória” ou Coleção (que retrata os primeiros 34 anos do século XIX português), desde os anos 30, do século passado. Esta junção do espólio relativo às “Memórias da Guerra Peninsular”, organizada por este autodidata, foi acordado entre a Família Pinto Basto e o Município de Óbidos, com a finalidade da criação de um Museu, sobre a temática, em causa. Objetivo, este, que desde 2008 (!) se anda a arrastar para a sua concretização, tendo sido construído um edifício, fora da Vila de Óbidos, para albergar o dito Museu, mas que, entretanto, foi alocado a outras valências (!), apenas existindo um pequeníssimo núcleo sobre a Coleção, não fazendo jus à sua importância patrimonial e cultural. Nesse sentido, alerto que este acervo, sendo um dos mais valiosos a nível internacional, não tem merecido a devida atenção pelos diversos responsáveis máximos que já passaram pela Autarquia obidense e dado que, neste momento, Óbidos passa a estar integrado nas chamadas “Rotas Napoleónicas” seria de extrema importância a criação do “MUSEU DA GUERRA PENINSULAR” (penso que deva ter essa designação!), para que tenhamos não só um espaço museológico de nível nacional, mas sim de nível internacional, na qual possam atrair, igualmente, não só um turismo de melhor qualidade para Óbidos, como atrair investigadores de todo o mundo que possam realizar trabalhos, a partir desta Coleção, finalmente acondicionada num local próprio. Reflitam, mais uma vez, também sobre este caso incompreensível!

    O letrista e poeta brasileiro Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido, no meio artístico, por CAZUZA, na sua canção: “O TEMPO NÃO PÁRA”, escreveu (e cantava) o seguinte, num dos trechos do refrão, que transponho para a realidade patrimonial/cultural, e não só, de Óbidos: “EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO. EU VEJO UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES [o versejador, queria dizer, que aquilo que surge como uma promessa de novidade, não passa de uma releitura de algo velho e cheio de “bolor”]…MAS O TEMPO NÃO PÁRA…NÃO PÁRA, NÃO PÁRA”. Vejam lá se nas palavras do poeta não é o que está a acontecer em Óbidos!. Reflitam, mais uma vez…

  • Educação materna e vigia infantil

    Educação materna e vigia infantil

    Joana Beato Ribeiro
    Arquivista

    Uma visita ao Lactário-Creche Rainha D. Leonor

    No passado sábado, tive a felicidade de tomar parte na inauguração de uma exposição documental sobre o Lactário-Creche Rainha D. Leonor, assinalando o seu centenário. Por isso, e para vos convidar a visitar a Sala Dr. Mário Gonçalves no Hospital Termal, durante o mês de dezembro, hoje conto-vos o que aconteceria se, numa máquina do tempo, regressássemos ao passado e fossemos parar ao Lactário. Prometo que não enveredarei pelo romance histórico e, se tiver oportunidade de guiar-vos na exposição, indicarei os documentos onde podem comprovar todos os pormenores!

    Segundo os Estatutos e Regulamento Interno (1928), a sede do Lactário funcionava entre as 8h30 e as 19h. Até às 11h todas as crianças deviam ter tomado banho. As visitas ocorriam entre as 12h e as 18h. A partir de outubro de 1928, após a aquisição de um aparelho de raios ultravioletas para tratamentos, o horário alargou-se, encerrando às 22h. A distribuição de leite aos protegidos era feita às 10h.

    Sabemos, pela Gazeta das Caldas, que o Lactário-Creche dispunha normalmente de 10 berços destinados a crianças pobres e/ou com situação familiar desfavorável até aos 2 anos, cuja entrada era aprovada pelo delegado de saúde e médico voluntário da instituição, Fernando da Silva Correia, e pela Direção. Além do médico, o pessoal do Lactário era constituído pelas regente, ajudante e servente. O médico, na consulta semanal, instruía-as sobre a assistência a prestar a cada criança; a regente era responsável pelo cumprimento dessas instruções e pela preparação e distribuição do leite, sendo auxiliada pelas restantes funcionárias.

    Ao longo do dia, o Lactário recebia normalmente duas senhoras visitadoras, que se ocupavam da vigia e pesagem das crianças, assim como do seu cadastro e do das suas mães. O acompanhamento materno que, em especial, estas visitadoras prestavam, era facilitado pela presença das mães na instituição, já que, as que tivessem leite e a sua entidade empregadora permitisse, poderiam dar de mamar aos filhos a cada duas horas e meia. Na impossibilidade do aleitamento, era o próprio Lactário que distribuía o leite, de origem animal, para o que contribuía a fiscalização efetuada no Laboratório Municipal, ou em pó, que era adquirido à Sociedade de Produtos Lácteos, única concessionária da Nestlé. Este era distribuído em biberons adquiridos à indústria vidreira da Marinha Grande.

    A vida do Lactário era também decidida pelos seus corpos gerentes: Assembleia Geral, Direção e Conselho Fiscal, havendo assembleias a 15 de maio e 18 de novembro. Estas ocasiões eram aproveitadas para celebrar o aniversário da instituição ou para prestar homenagens. Sendo o Natal também uma ocasião especial, era preparada uma festa para os mais novos, com animação e distribuição de roupas, brinquedos e doces. Momentos especiais podiam ser também aqueles em que o Lactário era distinguido com alguma visita, como a de dois médicos da Fundação Rockefeller em 1932.

    Há pormenores que ignoramos, mas muitos outros podem ser conhecidos numa visita à exposição “Casas de Bem-Fazer”. Não percam a oportunidade de conhecer as “Máximas para as mães”, chocantes e talvez um pouco datadas, mas que nos permitem mergulhar numa época diferente!

  • The Resistible Rise of Black Friday

    The Resistible Rise of Black Friday

    Erik Brunar

    When the smell of roasting chestnuts starts filling downtown Caldas da Rainha in October, the bus-stop ads for “Black Friday” in Enligsh stand out like a UFO in Parque D. Carlos. How did this phenomenon, a product of American consumer culture, land here? And do businesses have to rely on this kind of ploy to survive?

    In the decades after World War II, many trends made their way over from the USA to Western Europe because they promised a more casual and inventive lifestyle. These fads bolstered commerce and projected soft power. But Black Friday is just a slightly cringe-inducing side-effect of a purely American holiday, Thanksgiving. Yet it has taken hold here as an exhortation to consumer excess.

    One of the reasons for its adoption may be that by law, retailers are allowed to hold sales on up to 124 days per year. A third of all days could belong to a sales period. That has some merchants scratching their heads for pretexts to use up all those days. Black Friday fits into these plans in the same way it does in the US, as a kick-off for the December shopping season.

    The first common use of the term “Black Friday” for an autumn Friday not referring to a stock market crash (see: crash of 1869) was around 1960 when police officials in Philadelphia described the traffic chaos on the Friday after Thanksgiving with shoppers starting their year-end gift buying and fans converging for the fabled Army-Navy football game. The term caught on. In the 1980s, American retailers managed to rebrand the Friday’s blackness as a reference to a self-serving urban legend: that the crowds on that day finally swung stores from operating at a loss to making a profit for the year.
    Global expansion began in the 2000s. In Portugal it started in the 2010s with multinational retailers Amazon, Fnac, and MediaMarkt. The phenomenon kept growing in space, with new retail chains joining each year, and in time, with Black Week or Black Month trialed by bolder merchants–or those who wanted the crowds, but more spread out. A longer period also accommodates more thoughtful shopping. However, this particular trend shows signs of receding.

    How sure can one be of the deals to be had? By law, an item’s sale price must be lower than its lowest price in the last 30 days, and the labeling must show this base price. Articles first introduced during a sale have to be labeled Promotion and must be discounted from their regular price after the sale.

    On an overcast Thursday in mid October, I walked around downtown Caldas for three hours to interview owners or employees of fifteen stores selling clothes, jewelry, leather goods, household goods, and cosmetics.

    The survey’s results were blunt. Two out of the fifteen were doing something for Black Friday: a gothy teen makeup store and a sneaker store, both part of chains. The other 13 were locally owned. Almost half never even have sales. They manage their inventory carefully and cultivate clients through their curation and their integrity. Some of these businesses have retained customers for over four decades, regulars from the days when Caldas was a commercial magnet that pulled in shoppers from Lisbon and Santarém.

    A couple of people told me about those heady times before the big shopping centers came to Amoreiras, Carnide, and Loures, when Lisboans would swarm Caldas every weekend for that downtown shopping feel, that slightly old-timey, neighborly atmosphere. They visited their preferred stores as they would members of their family. They filled up on fruta at the eponymous Praça. When that traffic dropped off in the 2000s, the city made efforts to help the central business district. A financial crisis and a pandemic later, the area is blossoming again.

    Not 15 minutes away on foot, I stepped into the buzzing second floor of La Vie, Caldas’s big urban shopping mall. I took my questions to the fifteen shops on that level selling clothes, shoes, jewelry, and cosmetics. Seven of the eight shops I managed to survey in my 90 minutes there are having Black Friday events again this year. The most recent convert has only been participating for two years, but many are part of chains that have been doing it for much longer. Only the lingerie store was not taking part. Everybody agreed that the day was always exceptionally busy. Only two places were planning to extend the event to the weekend or to the week.

    Reflected in the stories that the clerks, managers, and owners told that day was a tale of two commercial cultures that stand apart and regard each other as somewhat alien. What about the shoppers? How often do they go between the two worlds?

    For those fed up with the commercialization of life, the artist Ted Dave invented an alternative celebration for the Friday after the last Thursday in November: you can examine the issue of overconsumption on Buy-Nothing Day by organizing a credit-card cutting party or an empty-shopping-cart parade.

  • Dia da Floresta Autóctone

    Dia da Floresta Autóctone

    Teresa Lemos
    Coordenadora do GEOTA

    A 23 de novembro assinala-se o Dia da Floresta Autóctone, uma data que continua a ser pouco valorizada no nosso calendário, apesar da sua enorme importância ecológica. Esta data convida-nos a olhar para a nossa floresta nativa formada por espécies que compõem o património natural de Portugal, evoluíram no nosso território e desempenham um papel insubstituível na preservação dos ecossistemas nacionais. A floresta autóctone portuguesa é representada principalmente por carvalhos, azinheiras, medronheiros, castanheiros, loureiros, entre outras espécies. Naturalmente mais adaptadas às condições do solo e do clima português, são mais resistentes a pragas, doenças e longos períodos de seca ou chuvas intensas. Apesar do seu crescimento mais lento do que algumas espécies introduzidas, quando bem estabelecidas são mais resistentes e resilientes aos incêndios florestais.

    Em Portugal, e em praticamente todo o clima mediterrânico, o período ideal para plantar árvores é o outono – ao serem plantadas nesta estação, as árvores beneficiam das chuvas, das temperaturas mais amenas e de um solo mais favorável ao enraizamento. Assim, crescem mais fortes e saudáveis, aumentando significativamente a sua taxa de sobrevivência.

    A associação entre o Dia da Árvore e o Dia Internacional das Florestas, celebrados a 21 de março, e as ações de plantação é compreensível, no entanto, do ponto de vista ecológico, é inadequada. As jovens árvores plantadas nessa altura enfrentam os meses mais quentes e secos do ano sem terem ainda desenvolvido um sistema radicular suficientemente robusto para garantir a sua sobrevivência. Por isso, o Dia da Floresta Autóctone, ou o Dia Mundial da Bolota, que se celebrou a 10 de Novembro, são datas simbólicas que constituem uma excelente oportunidade para organizar ações de plantação de espécies nativas, nomeadamente de carvalhos e outras árvores de fruto seco que fazem parte do nosso património natural, mobilizando escolas, autarquias, associações e cidadãos. Estas datas não só dão protagonismo às espécies que verdadeiramente pertencem ao nosso território, como coincidem com o período ideal para plantar e restaurar os ecossistemas.
    Valorizar estas datas é contribuir para uma gestão florestal mais responsável e sustentável. Plantar no momento certo é mais do que um gesto simbólico: é uma decisão responsável e eficaz.

  • Contraditório, pluralidade e liberdade: pilares essenciais da democracia

    Contraditório, pluralidade e liberdade: pilares essenciais da democracia

    David Vieira
    Técnico de Comunicação

    A democracia não se sustenta apenas no direito ao voto ou na liberdade de expressão, assuntos que tanto temos ouvido falar nos últimos tempos. Sustenta-se, também, na capacidade de cada cidadão pensar por si próprio. E isso só é possível se tiver acesso a uma informação plural e livre, que ofereça as posições e as versões de cada história. O jornalismo tem aqui uma responsabilidade central. Não basta informar, é preciso ouvir todas as partes envolvidas num assunto e apresentar ao público essas diferentes perspetivas. Só assim ele pode formar opinião com (mais) consciência.

    O contraditório não é um luxo, nem um favor que se faz a quem pensa diferente. É a essência do jornalismo ético e uma condição para a verdade possível. Realço que o contraditório não é o direito de resposta, que surge depois da publicação. O contraditório é o esforço prévio de procurar vozes diversas e colocá-las em diálogo. É esse exercício que dá equilíbrio a uma notícia e impede que ela seja apenas a versão de um dos lados.

    Como explica, de forma simplista, a teoria do agenda-setting, os media não dizem às pessoas como pensar, mas sim no que pensar. Ora, se só ouvirmos uma versão dos factos, estamos a limitar o nosso horizonte e a empobrecer o debate público. E quando o debate público empobrece, a democracia adoece. Já aqui escrevi que cidadãos informados são melhores cidadãos. Mas cidadãos informados com contraditório são cidadãos mais críticos, mais participativos e mais conscientes das suas escolhas.

    Ouvir apenas uma parte deixa-nos coxos de conhecimento. O contraditório obriga-nos a confrontar ideias, a questionar certezas e a repensar posições. É um exercício que fortalece a liberdade, porque a liberdade também se constrói a partir do confronto com a diferença. Uma democracia sem contraditório é uma democracia frágil, porque deixa de ser um espaço de diálogo e passa a ser apenas um eco de vozes únicas.

    No jornalismo regional, o contraditório assume um papel ainda mais decisivo. É na imprensa local e regional que se discutem temas concretos e que nos são mais próximos, como as decisões camarárias, os eventuais conflitos de interesse, ou os projetos comunitários. Mais uma vez, ouvir todas as partes não é apenas um dever jornalístico é uma ferramenta de cidadania.

    A imprensa livre precisa da pluralidade. E a sociedade precisa de imprensa livre para poder pensar.

    Isso é pensamento crítico.

  • O que os olhos não querem ver e o coração não quer sentir

    Esta terra tem condições para ser o que queremos que ela seja. O que me ocorre era ver fazer das Caldas um museu a céu aberto.

    Temos de agradecer aos supermercados, que fizeram com que esta terra alargasse e, com eles, foram feitas rotundas. Rotundas essas que podem dar mais alegria e beleza às Caldas.

    Porque não pedir à CP se dispensavam uma máquina antiga e pô-la na rotunda do LIDL, que dá pra a Rua da Estação? Em frente ao Hospital Termal fazia-se uma rotunda com uma coroa de rainha.

    Estas são duas ideias que poderão ser apreciadas por alguém competente, mas há outras mais.

    Será que vivemos numa cidade condenada, onde rotundas com água trabalham tão mal e tão poucos dias no ano.

    Meus senhores, vamos ajudar esta terra, onde nascemos ou vivemos, e mostrar a nós próprios e aos outros que não vivemos numa terra condenada, mas sim numa terra abençoada. Pelo bem desta cidade.

    José Manuel H. Santos

  • Unidade urgente para defender os “direitos laborais”

    Alpalhão, Lisboa, Covilhã, Sesimbra, Coimbra, Porto, Peniche, Aljezur… e aqui, na sua cidade. Em todo o país, um grupo de cidadãos faz soar o alarme: a nova reforma laboral do Governo não é modernização, mas sim um “retrocesso civilizacional” que ameaça os direitos conquistados com o 25 de Abril. E foi assim que apelou ao entendimento entre as Centrais Sindicais.

    A proposta do Governo para a legislação laboral está a gerar ondas de preocupação. Para o grupo informal de cidadãos Amigos de Aprender (AAs), que se reúne há cerca de 25 anos para debater a atualidade social e política, e para a Base-FUT, esta reforma é vista como uma “contra-reforma” que agrava as condições de trabalho, retomando “padrões laborais anteriores à democracia”. E afirmam os AAs e a Base-FUT: “O que é proposto é demasiado importante e abrangente para nos deixar indiferentes.”

    O grito de alerta: um apelo à unidade. Perante o que consideram uma profunda ameaça à dignidade do trabalho, os AAs e a Base-FUT lançaram, em julho/agosto, um apelo ao entendimento entre as centrais sindicais. O objetivo é claro: exigir que a CGTP-IN e a UGT se unam em ações concretas para dar “voz e força ao combate “à proposta governamental”.

    O abaixo-assinado reuniu cerca de 300 assinaturas de diversas áreas: sindicalistas, professores, profissionais de saúde, juristas, autarcas, políiticos, académicos e ativistas, sublinhando a transversalidade da preocupação. O documento entregue às centrais sindicais é incisivo: num momento de crescimento de forças populistas e de extrema-direita, e perante uma reforma “profundamente lesiva”, é urgente que o movimento sindical se una na defesa da democracia e dos direitos laborais. Os promotores do apelo já se reuniram com as direções de ambas as centrais. No dia 21 de setembro, o encontro com a CGTP-IN, que contou com o Secretário-Geral, foi “positivo”, reafirmando a total oposição da central às propostas.

    No dia 28 de setembro, a reunião com a UGT, também na presença do seu Secretário-Geral, registou uma “ampla convergência de preocupações”. A UGT manifestou “disponibilidade para procurar formas de unidade na ação”. Dezenas de sindicatos confiam em formas de luta convergentes. A 27 de setembro, em Lisboa, mais de duas dezenas de sindicatos da CGTP, da UGT e independentes, bem como diversas Organizações sociais, afirmam que «CONFIAM que a CGTP-IN e a UGT, perante esta profunda e grave ofensiva do Governo contra o Mundo Laboral, esgotadas todas as possibilidades negociais com o Governo e nos momentos considerados convenientes, saberão encontrar as formas de luta convergentes que venham a considerar-se necessárias, nomeadamente a convocatória simultânea de uma GREVE GERAL, para se alcançar o superior objetivo de a derrotar.»
    O apelo à mobilização está feito. A luta pela dignidade do trabalho e pelos direitos laborais exige uma resposta unida e forte. Como irá a sua região participar neste debate crucial? Como vão os seus colegas ser informados com verdade? Como vamos, todos afinal, manter os nossos direitos?

    António Ludovino

  • As cidades e a memória

    As cidades e a memória

    Paula Ganhão
    Gestora de Projetos

    Uma cidade é sempre mais do que aquilo que mostra à primeira vista. Guarda as marcas de quem nela viveu e as histórias que o tempo teima em preservar. Cada rua revela fragmentos do que fomos; cada praça reúne gestos, memórias e encontros que definem a sua identidade. O verdadeiro território urbano não se mede apenas em ruas ou edifícios, mas nas experiências e lembranças que ligam as pessoas aos lugares onde vivem.
    Hoje, porém, as nossas cidades parecem esquecer-se de si mesmas. Expandem-se em ecrãs, feeds e imagens instantâneas, convertendo experiências densas em momentos fugazes. O turismo massificado, a gentrificação e a especulação imobiliária transformam bairros vivos em vitrinas polidas, apagando memórias e empurrando comunidades para fora. A cidade não é apenas espaço físico: é experiência vivida, identidade partilhada, herança afetiva. Quando a reduzimos a números e rentabilidade, ela desvanece — invisível até para quem nela habita. A pressa e a distração tornam-nos meros espectadores daquilo que devíamos viver.

    No século XXI, a tensão entre o real e o imaginado tornou-se mais aguda. As cidades coexistem agora com os seus reflexos digitais — metrópoles de dados, perfis virtuais, mapas interativos e realidades aumentadas. A atenção que lhes damos define o que permanece e o que se apaga. Percorrer os ecrãs sem olhar as ruas é contribuir para o seu desaparecimento. Uma cidade só sobrevive se for sentida, contada e preservada.

    Se não resistirmos à mercantilização do espaço urbano e à efemeridade digital, perderemos mais do que edifícios. Perderemos a humanidade que a cidade guarda: a capacidade de criar, de partilhar histórias, de sentir pertença, de transformar o espaço em lugar. Cada janela fechada, cada loja que desaparece, leva consigo um pedaço da nossa memória comum. Somos todos, de algum modo, guardiões do que resiste. E talvez seja no ritmo do quotidiano, nas rotinas pequenas e persistentes, que a cidade respira e se renova, reinventando-se a cada geração.

    E, paradoxalmente, é na imaginação que pode residir a resistência. Só através da memória, da atenção e da criação de novas narrativas podemos tornar a cidade novamente visível. Talvez cada uma delas seja, afinal, uma carta escrita ao futuro — uma tentativa de fixar o que somos antes que o tempo o apague. Reencontrá-la é também reencontrar-nos: perceber, entre ruínas e ecrãs, o brilho persistente do humano que insiste em habitar o invisível.

  • O Voluntariado (In)Visível das Caldas

    O Voluntariado (In)Visível das Caldas

    Manuel Bandeira Duarte
    Designer e artista

    As Caldas da Rainha são um mar infinito de núcleos, redes, camadas associativas, culturais e desportivas. Este mar não está num mapa nem se mede em quantidade. É feito de associações, coletivos, grupos informais, artistas e voluntários. É diverso e tão vasto. Será totalmente visível ao olhar de cada um? Ou será algo que muitos preferem não ver?

    Cada núcleo é distinto entre si: alguns centenários, de raízes fundas, outros ainda frágeis, mas com vontade de crescer. À primeira vista parecem isolados; no entanto, abaixo da superfície do visível, unem-se de afinidades e valores partilhados: a vontade de criar, de cuidar, de educar, de ilustrar histórias e de dar vida a uma comunidade e a uma cidade.

    Como em qualquer mar, esta diversidade é a sua maior riqueza. E como tal, para se tornar mais entrelaçado, interligado e visível, precisa não só do olhar atento, mas também da mão e do gesto de cada um, dando um pouco de si e contribuindo para tanto.

    Reconhecer este mar (in)visível é reconhecer que o nosso presente e futuro não dependem apenas do palpável e do óbvio, mas sim da vitalidade destes ecossistemas sociais, culturais e associativos. Por vezes, falta construir caminhos e desvendar o mapa a quem não o conhece. Dar valor. Estar atento. Agir.

    Neste mar já temos exemplos disso mesmo. De quem procurou fazer e permaneça a construir. São anos em que a nossa história é acompanhada destes pequenos núcleos e, se assim o é, o que dificulta a adesão e o apoio daqueles que não querem ver?

    Há espaço para mais, há muito por fazer e temas por ocupar. Porque não criar um mapa vivo de associativismo, acessível e claro, no qual cada cidadão possa e saiba como se juntar? Cabe-nos, enquanto indivíduos, percorrer este mapa, cuidá-lo e fazer parte dele. Uma cidade não é só o que se vê e vive nas ruas. É, também, o que cresce, silenciosamente, na vontade de quem se organiza para criar, partilhar e transformar.

    Sempre fui estimulado a agir e a mergulhar no associativismo. Ser voluntário é dar asas e contributos a uma comunidade melhor, maior e de boas essências e boas práticas. É uma inspiração e é ser ímpar. É gostar de “bocados de felicidade simples” (A Terapia do Flamingo – p. 54, de José Pedro Viegas – uma inspiração).

  • Vamos Bem! Living Aging & Dying Well – Silver Coast

    Vamos Bem! Living Aging & Dying Well – Silver Coast

    Amélie Sangmo

    Last December, retired US nurse Joy Goldman was a featured speaker on ExpaCity.com. During her interview, Joy explained how, when she moved from the US to Setúbal, she recognized a vacuum of information for foreigners regarding aging and dying in Portugal. With her experience in healthcare and hospice, Joy knew she could help–and has she ever!

    Starting 2023, both with Joy’s help and organically, her community began creating and finding tools that could help someone who was either temporarily dependent or on a journey toward death. Through applications like Meal Train and CaringBridge, they were able to gather circle support to provide meals, transportation, grocery shop, peer counseling, pet care, shared durable medical equipment, and more.

    This experience proved tremendously valuable as it showed how community can facilitate non-medical support–services so vital to recovery and care. A founding team began to create checklists and procedures for completing legal, health-related documents and for helping organize support from friends, family and volunteers. Resource materials were collected and a series of informational workshops began, all of which grew into Vamos Bem!, created for the easy sharing of educational information related to aging and dying well in Portugal.

    The mission of Vamos Bem! is “to support those living in Portugal to age and die well, with dignity and peace of mind,” and “to provide compassionate support, unwavering advocacy, and meaningful engagement to foster a strong community that honours each individual’s health journey.”
    But it’s not just the mission that makes Vamos Bem! special. It’s also their vision and values. The Vamos Bem! vision is “to be a model community that supports its residents with loving care, exceptional resources and timely action so they may age well and die with serenity.”

    Their values encompass 5 key points:
    “Community. We are shaped by the needs of the people in our communities. As we age, face health challenges and deal with loss, we ensure everyone feels valued and cared for through all stages of life.

    “Compassion. Knowing that each of us is a heartbeat away of losing our independence and life as we now know it, we help each other prepare and provide support as needed.

    “Courage. We inspire honest conversations about the dying process so that we may design a good death.

    “Respect. We honour your privacy, your choices and your dignity. We act with deep sensitivity regarding any personal feelings, views or information shared. We listen and learn what is most needed.

    “Action. We are committed to taking quick action that supports the immediate needs of our communities. We are present and accessible. We offer tools, current resources, and people power to help get things done on your behalf.”

    The Expacity webinar spurred residents of the Oeste into action and soon thereafter, the Vamos Bem! Oeste chapter, known as Living, Aging and Dying Well Silver Coast (LAD), was formed.

    The first meeting was held last February. Organized by your author and with the support of friends, we thought we might have 15-20 attendees. Almost 70 people came to learn more about LAD! They heard about wills and inheritance in Portugal from two local attorneys, Ana Ferreira Real and Carlos Tomé, and the necessity of having a two- or three-tiered ER Care Team from yours truly.

    Intrigued? Topics you need to know more about? You’re in luck.
    The next LAD Event is set for 3pm, November 24, at the Caldas da Rainha Library. The topics are two things that everyone can count on: taxes and dying. José Luis Oliveira, Certified Accountant & Hugo Duarte, Technical Accountant of Obinfor Contabilidade Informática e Gestão will offer general information regarding Portugal’s various national and local taxes. LAD member Teri Loendorf will explain how to donate one’s human remains to science, should you choose to do so, and Diogo Nascimento and Francisco Marques of Agência Guerra funeral home will join us to explain how funeral arrangements are typically handled in Portugal.

    Topics we don’t necessarily want to learn about, but ones we all need to know about!
    Future LAD meet-ups will address healthcare, retirement communities, insurance and real-estate issues, and a repeat of ER Care Teams and Wills and Inheritance for any newbies to our area.

    To register for November 24, visit vamosbem.pt, click on the ‘Where We Are,’ select Silver Coast & join our WhatsApp group. A link to the registration form is pinned to the top of the chat box. Registration is limited and requires a €5 cash entrance at the door to cover expenses, though, as before, any surplus funds will be donated to local charities.
    We are Living, Aging and Dying Well on the Silver Coast. Vamos Bem!

  • Que futuro para Portugal sem imigrantes?

    Que futuro para Portugal sem imigrantes?

    António Marques
    Técnico de Turismo

    Portugal no curto prazo seria marcado por uma população significativamente menor e mais envelhecida, o que levaria a um forte impacto negativo na economia e na sustentabilidade do Estado Social. Sem a imigração, a população poderá cair drasticamente para pouco mais de 6 milhões em 2100 e então a economia enfrentaria dificuldades de crescimento, a sustentabilidade das contas públicas ficaria comprometida e a qualidade de vida poderia estagnar ou mesmo regredir em comparação com outros países da União Europeia.

    Consequências demográficas
    1-Redução drástica da população
    2-Envelhecimento populacional, a percentagem de idosos aumentaria ainda mais, com menos jovens e pessoas em idade ativa.
    3-Consequências económicas e sociais, produzir-se-ia um Choque no crescimento económico com a falta de mão de obra migrante que é crucial para compensar a baixa taxa de natalidade e aumentar a produtividade.
    4-Carga fiscal mais alta, pois para manter a sustentabilidade das finanças públicas, seria necessária uma subida significativa da carga fiscal.
    5- Forte Impacto nos sistemas de Segurança Social, com menos trabalhadores para contribuir, o financiamento dos Sistemas Sociais e de outros Serviços Públicos ficaria ameaçado.

    Perante estes cinco principais vectorea teremos que concluir que a imigração é essencial para Portugal enfrentar os seus desafios demográficos e económicos, sendo fundamental para manter e melhorar o nível de vida da população.

    Um cenário sem imigração colocaria Portugal numa posição de instabilidade económica e social, com uma população em declínio e envelhecimento, o que dificultaria o alcance dos níveis de vida de outros países europeus.

    Hoje sejamos lúcidos Portugal não teria Futuro.

    Podemos até quantificar, acabar com imigração obrigaria carga fiscal a subir de 35,2% para 38%. Com impactos muito duros nas economias das famílias.

    Eu diria que tivemos nos últimos 8 anos uma taxa de natalidade que aumentou 20%, sobretudo graças ao fenómeno da Imigração.

    É uma ilusão pensar um futuro melhor para Portugal sem imigração.

    Portugal sempre foi um País de Imigrantes quen ajudaram a desenvolver muitas economias Europeias e em muitos Países fora da Europa.

    Os Imigrantes Portugueses sempre foram bem tratados e acolhidos nos quatro cantos do Mundo.

    Saibamos agora respeitar os seus valores culturais, fazendo tudo para os integrar no cumprimento da legislação Portuguesa, com segurança para todos.

  • A comunicação com crianças e jovens

    A comunicação com crianças e jovens

    Lurdes Pequicho
    Educadora de Infância

    “Não foi o que disse, foi a forma como disse”. A forma como comunicamos interfere muito com a reação e forma como o outro recebe a mensagem. Quando se trata de comunicar com crianças e ou adolescentes é fundamental termos clareza na forma como comunicamos.

    A nossa disponibilidade para a conversa, o tom de voz, a postura corporal, expressão facial e o real interesse pelo outro fará toda a diferença para o sucesso da comunicação. O contacto visual é crucial, diz à nossa criança/adolescente se estamos ou não atentos e disponíveis para a conversa. É importante também, enquanto o nosso filho fala focarmo-nos em entender o ponto de vista dele, com empatia e sem julgamento, tentar ver o mundo pelos seus olhos. Aquando da exposição da ideia, é fundamental irmos dando sinais de que estamos a ouvir e a entender a mensagem, uma forma eficaz de o fazer, é à medida que a nossa criança for falando, nós vamos fazendo um resumo do que está a dizer, para termos a certeza, nós e ele, que estamos realmente atentos e a entender o que nos está a tentar comunicar ou então caso não estejamos a entender, perguntar com um tom de curiosidade para que fique mais claro. Caso seja solicitado, damos a nossa opinião e focamo-nos nos factos de forma assertiva, clara e transparente. Atentarmo-nos apenas nos factos, sem rotular, culpar ou responsabilizar e evitar desvalorizar o sentimento do nosso filho e o acontecimento em si, ajuda a criar um laço de confiança. Quando quiser fazer uma critica que ache necessária, não o faça de forma agressiva, mas sim acolhedora e respeitosa.

    É também importante que ao longo da conversa valorizemos os seus pontos fortes, ver o nosso filho como um parceiro e ajudá-lo a assumir a responsabilidade de resolver as situações. É benéfico para a conversa que consigamos receber uma crítica sem julgar as razões e só depois analisar se essa critica faz ou não sentido para mim. Assumir, planear e tomar responsabilidade pelos nossos erros e solucionar a situação sem ter a pretensão de ter a razão ou de estar certo. Podemos sempre pensar no assunto depois da conversa e mais tarde voltar ao mesmo e dizer novamente de forma assertiva aquilo que achámos dessa abordagem.

    Como pode ver, conseguirmo-nos manter calmos e encarar a conversa com espírito de empatia, compaixão e sem julgamento, ajuda bastante a estabelecer uma relação de confiança, que leva a relações familiares mais harmoniosas.

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